Pesquisa

Monitoramento sistemático da pesca

Depois de conquistada a confiança dos pescadores, passamos para a rotina dos monitoramentos da pesca, sendo nesta etapa levantados dados a respeito da frota, das redes e dos locais de pesca. Neste monitoramento diário são tomados dados sobre as redes, para que possamos controlar a quantidade de redes no mar e o local onde estão armadas e também sobre as espécies de peixes capturados.

Outra forma de coleta de dados é através de embarques com os pescadores, neste caso um ou dois pesquisadores acompanham os pescadores no mar, possibilitando tomado de dados ambientais e também a observação dos animais no mar.

Através deste monitoramento poderemos descrever as atividades pesqueiras, as espécies de peixes capturadas, a produção desembarcada, bem como permitirá traçar mapas dos locais aonde ocorrem os maiores números de capturas acidentais e também definir qual rede e em qual época ocorrem os maiores números de capturas acidentais de golfinhos e tartarugas..

A pesca artesanal no estado de SP

A pesca artesanal e/ou de pequena escala no Brasil é praticada ao longo de toda a costa brasileira, contando com cerca de 25.000 barcos de pequeno porte.E, embora a pesca artesanal represente grande parcela da frota brasileira, pouco ou quase nada se conhece sobre as atividades e a produção desta categoria. Sabe-se que as estimativas são subestimadas levando a supor que a produção desta atividade seja maior do que a considerada.

Devido a escassez de informações sobre a frota pesqueira artesanal do estado de São Paulo, o Projeto BioPesca vem conduzindo um levantamento das atividades, artes, métodos e produção da pesca artesanal, em especial no município da Praia Grande, SP.

Essas embarcações utilizadas pela frota artesanal são de pequeno porte e desprovidas de equipamentos de navegação e detecção de cardumes, são feitas de madeira ou de alumínio e movidas com motores de centro ou com motores de popa.

As redes utilizadas são as redes de espera para a captura de peixes de fundo (pescadas, corvina, papa-terra) e para a captura de espécies pelágicas (cações, sororoca e robalo). A área de pesca está restrita à área costeira, até a isóbata de 20m.

A pesca é realizada ao longo de todo o ano, ocorrendo aumento do esforço de pesca nos meses de verão, fato que está ligado a maior procura pelo pescado (aumento de turistas na região) e as melhores condições do mar (em mar bravo as embarcações ficam impossibilitas de saírem pescar). Diversas espécies de peixes são capturadas, sendo as famílias Sciaenidae e Carangidae as principais em termos de captura e em número de espécies.

O uso de redes com tamanho de malhas de no mínimo de 7cm entre nós opostos esticados, impossibilita a captura de peixes de pequeno porte (peixes imaturos), demonstrando uma grande seletividade de captura, o que causa pouco impacto sobre os estoques pesqueiros. A seletividade somada a pequena produção desembarcada por esta frota faz com que poucas espécies sejam rejeitadas para o comércio, ocorrendo um máximo aproveitamento dos desembarques.

Amostras biológicas

Além do monitoramento sistemático do esforço de pesca, os animais que morrem nas redes de pesca são trazidos pelos pescadores.ESte material tem possibilitado a realização de outros estudos que ajudaram no aumento do conhecimento sobre as espécies acidentalmente capturadas.

Os animais são conduzidos a um laboratório para que sejam tomadas suas medidas (dados morfométricos) e seja feita coleta de amostras de material biológico. Nestes anos, obtivemos mais de 160 golfinhos mortos, cerca de 80% foram toninhas mortas.

Ocorre um maior número de tartarugas liberadas com vida, em comparação com a toninha. As tartarugas possuem uma maior capacidade de permanecerem embaixo da água sem sair para respirar. Em muitos casos, no momento da retirada das redes as tartarugas encontram-se desmaiadas e para que possam se recuperar e serem soltas no mar é necessário alguns procedimentos para serem desafogadas.

Este procedimento têm sido realizado pelos pesquisadores e pelos próprios pescadores, possibilitando assim que mais da metade das tartarugas acidentalmente capturadas retornam-se vivas para o mar.

As principais linhas de pesquisa com material biológico desenvolvidas pelo Projeto BioPesca e/ou por pesquisadores colaboradores são:

Enfermidades/patologias, reprodução, crescimento, idade, habitos alimentares, anatomia, contaminantes, estudos moleculares/DNA, taxonomia.(Veja as publicações)

Necrópsia e colheita de amostras

Utilizamos amostras colhidas de animais encontrados mortos em praias ou acidentalmente capturados em redes de pesca no litoral do Estados de São Paulo.

Os animais mantidos em gelo e levados a laboratório onde são pesados e é realizada a tomada de uma série de medidas. Durante a necrópsia, a abertura da carcaça, os órgãos são avaliados separadamente e analisados cuidadosamente; fragmentos de aproximadamente 1 cm3 dos órgãos principais, são fixados em solução de formalina a 10%, para a confecção de lâminas e posterior interpretação histopatológica.

Fragmentos de diversos órgãos tambem são congelados para estudos, como, por exemplo, músculo para análise de DNA e gordura para análise de contaminantes.

Contaminantes

A contaminação ambiental é um dos maiores riscos atuais e futuros ao equilíbrio dos sistemas continentais e costeiros.

Os poluentes orgânicos persistentes (pesticidas clorados e PCBs) são um dos principais grupos de poluentes que afetam os ecossistemas devido a sua grande persistência no ambiente e toxicidade para os organismos.

Os mamíferos marinhos são os mais afetados por esses compostos devido a sua posição na cadeia trófica.

Os compostos orgaclorados causam grande impacto na natureza devido a três características básicas: persistência ambiental, bioacumulação e alta toxicidade.

Os mamíferos marinhos estão entre os organismos mais vulneráveis à toxicidade crônica desses contaminantes porque, além de concentrá-los em grande quantidade, a fêmea transfere parte da carga ao filhote durante a gestação e lactação.

Habitos alimentares

O objetivo deste projeto é o estudo dos hábitos alimentares das espécies S. guianensis e P. blainvillei do litoral do Estado de São Paulo a partir da análise do conteúdo estomacal dos exemplares coletados, identificando as espécies predadas e determinando sua riqueza e abundância.

Os estudos sobre hábitos alimentares de uma espécie permitem a obtenção de diversos tipos de informação acerca de seu comportamento, quando a observação in situ é bastante dificultada, como é o caso das espécies em questão neste projeto.

Estes trabalhos também são essenciais na caracterização das relações tróficas no ecossistema e dos padrões de relação entre predadores e presas. Além disso, informações sobre a variação das áreas de forrageamento de acordo com a sazonalidade, idade, sexo e maturidade sexual são obtidas nesses trabalhos e são de fundamental importância para a elaboração de um plano de conservação para a espécie.

Parasitas

As parasitoses têm sido associadas a diversas doenças e consideradas como uma das possíveis causas de encalhes de golfinhos ao redor de todo o mundo. Os parasitos costumam ser oportunistas e estão presentes na grande maioria dos golfinhos, afetando com maior intensidade animais que estejam debilitados física ou imunologicamente. Quando acometem animais sadios, na maioria das vezes, não causam sintomas clínicos ou patológicos observáveis.

A maioria dos ciclos de vida dos parasitos são indiretos, isto é, necessitam de hospedeiros intermediários para que o ciclo se complete. O hospedeiro definitivo, o golfinho, se infecta através do alimento, o peixe.

O peixe é hospedeiro intermediário de uma grande gama de parasitos, e quando o golfinho ingere um peixe que contenha o estágio larval de algum deles, provavelmente desenvolverá a forma adulta do verme, completando assim o ciclo.

Nos últimos quarenta anos o estudo das parasitoses tem sido uma importante ferramenta de pesquisa, usando os parasitos como marcadores biológicos, ou seja, relacionando sua presença ou ausência com investigações sobre a filogenia, distribuição, hábitos alimentares e estoques populacionais de mamíferos marinhos.

Avistagens

Nas embarcações, um observador posiciona-se na proa (0º), responsável por 180º de visão, ou dois observadores, cada qual responsável por um ângulo de 90º de cada lado do barco.

É utilizado um binóculo para auxiliar na localização dos cetáceos. Os dados são obtidos utilizando-se observações naturalísticas, as quais se registra o comportamento dos animais com a menor intrusão possível.

Sobre os animais, serão coletadas as seguintes informações: Tamanho de grupo ;Presença de filhotes e juvenis; Comportamento; Direção do deslocamento; Associação com aves e outros animais; Tráfego de embarcações de pesca, turismo e/ou de esporte e recreio.

O local da avistagem é registrado por GPS, plotado no mapa o local e conferido na carta náutica a isóbata de profundidade. Também são coletados dados ambientais coletados como: Data, local e horário de observação; Distância da costa; Profundidade; Temperatura da superfície da água; Estado da maré; Transparência da água.

Além disso, os mestres de algumas embarcações pesqueiras de médio a grande porte que trabalham com as artes de pesca rede de emalhe, traineiras e arrasto de portas foram munidos de máquinas fotográficas e caderno de bordo para registrarem mamíferos marinhos, principalmente cetáceos em suas viagens pesqueiras.

Resultados

Num levantamento maior sobre a pesca do estado de São Paulo, no período de junho/04 à abril/05 foram foram percorridos os 16 municípios costeiros do estado de São Paulo, totalizando 99 comunidades pesqueiras visitadas, somando uma frota de 1.176 embarcações operando redes de emalhe no litoral paulista.

Estimou-se uma mortalidade total de 414 toninhas na costa paulista no período de junho/04 à abril/05.

O valor de mortalidade estimada para o estado de São Paulo aproxima-se ao encontrado para outras áreas de distribuição da espécie, por exemplo, costa da Argentina de 340 a 671 golfinhos/ano e costa do Rio Grande do Sul de 495 à 1069 toninhas/ano (ver OTT et al., 2002).

A inexistência de estimativas de abundância para P.blainvillei na FMA II, não permite avaliar o real impacto desta mortalidade, porém este trabalho indica um valor próximo ao de outras áreas, sugerindo que essa possa ser insustentável.

Deve-se atentar que este trabalho apresenta uma primeira estimativa de mortalidade da Pontoporia blainvillei para a costa de São Paulo, baseada apenas no monitoramento de 6 localidades pesqueiras e portanto a continuidade do monitoramento e a ampliação para outras áreas possibilitará o cálculo de estimativas mais acuradas.

Futuro

Os resultados do nosso trabalho indicam que apesar da produção pesqueira da comunidade estudada ser pequena, esta apresenta grande importância se considerarmos que esta comunidade é uma dentre muitas espalhadas pelo litoral paulista e, portanto trabalhos como este devem ser conduzidos ao longo de todo o litoral brasileiro para que se possa conhecer a dinâmica e a produção desta frota.

É claro que a pesca industrial no Brasil precisa ser modernizada e equipada para que diversos estoques de pescados, ainda não explorados pela frota brasileira, sejam capturados. Porém, antes de investir no aumento da produção da pesca industrial, deve-se criar esforços para o ordenamento da coleta de dados de produção da frota artesanal. Somente, a partir de uma estimativa de produção realista, ou seja, aquela que inclua os dados da frota artesanal, se poderá propor uma correta política de desenvolvimento da pesca no país.

Somente através de trabalhos cooperativos entre pesquisadores e pescadores, trabalhos educacionais e através de monitoramentos constantes e a longo prazo poderemos avaliar e propor medidas corretas para a diminuição das capturas acidentais na pesca artesanal, preservando assim a pesca artesanal e estas espécies tão ameaçadas pela ação humana.

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